Arquivo da categoria: Transsexual e Transformismo

Tomboy (2011)

de Celine Sciamma

Tomboy para alguns sofre de um mal, que a meu ver acaba por ser a sua maior virtude. A simplicidade que Celine Sciamma opta por dar à narrativa, transparecem às interpretações uma naturalidade invejável. Acreditamos naquela família e sobretudo acreditamos em Laura/Michael, uma criança de 10 anos que recém chegada à nova localidade, finge ser Michael e começa a relacionar-se com as crianças daquele bairro como Michael.

O interessante deste filme é que não existe qualquer manipulação por parte da cineasta em entrar qualquer campo de sexualidade. A realizadora mostra as várias interacções entre irmãs, entre pais e um primeiro amor. O que importa é mostrar aquele Verão, como algo que poderá ter implicações futuras ou como algo estruturante na sua sexualidade para o futuro ou como uma pequena brincadeira de verão. Ao longo do filme vamos tendo as nossas respostas, que, sugerem um ou outro caminho, mas a realizadora habilmente gere  os espaços e nunca toma partidos, para tornar o filme, ( tal como a sua protagonista) ambiguamente cativante.

Previsão de Estreia 19 de Abril

67% by Porcupine

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Stonewall (1995)

de Nigel Finch

Stonewall ficciona os eventos de 28 de Junho de 1969 e apresenta uma amalgama entre ficção e documentário com personagens e enredos que tornam o filme num entretenimento light, sem qualquer pretensão ser uma lição de história ou um drama demasiado de semblante demasiado carregado. Daí que o realizador tenta colocar alguns dos seus personagens no centro de alguns dos movimentos LGBT mais sonantes da época, dá-lhes um enredo novelesco e tenta equilibrar os elementos dramáticos com alguma precisão histórica.

No centro da narrativa temos La Miranda, uma drag-queen habitué de Stonewall Inn, que num raid habiual da polícia conhece Matty Dean, um jovem que vem para a terra das oportunidades e da liberdade, para encontrar uma realidade bem mais opressora e camuflada. Ele é um jovem atípico, activista LGBT, assumidamente gay, vai contra o status quo que está estabelecido, onde os gays vivem das aparencias e tentam-se fixar no mundo de rótulos.

Essa inconformidade permite que o romance floresça entre estas duas personagens que só é perturbado com a entrada de Ethan, um homem atraente activista do grupo Mattachine Society. O filme introduz vários elementos que fizeram parte da cultura LGBT daquela década, mas falha ao transpor para o ecrã o ambiente de opressão que culminou aos “motins de Stonewall”, todos aqueles ingredientes que despoletou a revolução que seria o climax do filme.

O argumento de Rikki Beadle Blair deliberadamente evita as cenas mais dramáticas, substituido-as por números musicais, o que faz com tudo que culmina esses eventos sejam vistos como precipitados. Seja na discussão que culmina com o abrupto romance entre os protagonistas (uma desculpa para mostrar a validade do triângulo amoroso), seja no próprio climax do filme, que é a revolta.

A personagem mais interessante do filme é uma personagem secundária, Bostonia figura matriacal de drag queens que frequenta o Stonewall Inn, que mantém um romance escondido com Vinnie, um dos pertencentes à máfia e que geriam o bar. Na dualidade entre figura opressora e a paixão que sente por Bostónia ele é reflexo de uma sociedade closeted, sempre em conflito entre aquilo que desejava, e aquilo que desejava mostrar.

Daí que aqueles momentos finais, onde Doris Day canta e olhamos para Bostonia sentimos que existia muito material para ser explorada aqui com aquela personagem e com bastante mais relevância do que o duo protagonista. Tanto Vinnie como Bostónia deveriam de ser protagonistas para dar a Stonewall o ambiente que deveria de retratar.

Não que Gillermo Diaz e Frederick Weller façam um mau trabalho não é isso que está em causa. Mas o foco da narrativa estão nas pessoas erradas, aquele deveria de ter sido o Stonewall de Bostonia e não de La Miranda.

Os eventos históricos poderão não ser exactos, pode existir alguns erros históricos, desde que a história seja verdadeira com as personagens que a compõe e a meu ver este Rikki Beadle-Blair comete aqui os mesmos erros que cometeu em FIT  onde dispersa-se por personagens e ambientes, mas deveria de ter sido fiel a uma época e a todo um espiríto que foi absolutamente decisivo para o culminar da cultura LGBT actual.

Nigel Finch foi também o responsável  por  Lost Language of the Cranes ou o musical Vampyr (1993). Stonewall foi o seu ultimo projecto, pois viria a falecer vitíma de complicações devido ao virus da SIDA.

48% by Porcupine

The Crying Game (1992)

de Neil Jordan

Até à altura, nunca nenhum twist tinha causado tanta controvérsia. A Revelação final de Jaye Davidson apesar de actualmente ser previsível, é das melhores pérolas narrativas de sempre da história do cinema, revelando o que muitos suspeitavam de uma forma tão directa e honesta que torna-se naquele pequeno detalhe que define o filme por completo.

Jaye Davidson é Dil, uma jovem mulher que vai-se ver no meio de um triângulo amoroso. A primeira vez que vi o filme senti-me exactamente da mesma forma quando vi Psico de Hitchcock, Crying Game poderia muito bem ser dois filmes completamente distintos: A primeira parte é a relação distante, a afinidade que se desenvolve entre Fergus, um soldado da IRA (Steven Rea) e Jody, um soldado britânico ( Forrest Whitaker). A primeira parte termina com a morte de Jody e o desmantelamente daquela unidade terrorista. A segunda parte completa o arco narrativo com o desenvolvimento da relação entre Dil e Fergus e o confronto com o passado entre Jude ( Miranda Richardson) e Fergus.

Nesta parte final, Neil Jordan acaba por confrontar todas estas personagens, como se a verdade fosse a ultima fronteira para descobrir a sua essência. Dil ao revelar a sua natureza, está a despir-se de todas as mentiras, algo que Fergus terá que o fazer inerentemente e que o fará renegando à sua ideologia e às suas raízes em nome de algo bastante mais concreto redentor que é o amor.

Eu acho este argumento incrível, simplesmente pela forma como envolve lendas (mais uma vez a lenda do Escorpião e do Sapo) e eventos que moldaram a história de dois países numa história com valores humanos bem intrínsecos e verdadeiros. Acaba por ser uma história que agrada a vários tipos de público sem nunca defraudar nenhum deles e diga-se o que disser, previsível ou não, The Crying Game além de ser um excelente testemunho de uma nova fase do Queer Cinema que se vivia na altura, é sobretudo grande cinema.

92% by Porcupine

To Wong Foo, Thanks for Everything Julie Newmar (1995)

de Beeban Kidron

Um filme que tem no seu título, uma fotografia de Julie Newmar que é roubada de um restaurante é significativo e explica tudo o que vemos no filme. Nada é original. Desde as similaridades dos protagonistas com Priscilla Queen of the Desert e Thelma & Louise ( a tentativa de violação e o Brad Pitt de trazer por casa) às soluções narrativas que o filme envereda, desde homofobia a violência doméstica, faz deste filme um exercício banal que transmite bem o espirito norte-americano : Se não sabes fazer melhor, copia!

Salva-se o trio de protagonistas que fazem um trabalho excepcional como drag queens (Patrick Swayze dá uma mulher lindissima, Wesley Snipes uma abrutalhada e sensivel queen e John Leguizamo dá um ar latino irresistivel a Chi Chi), nota-se que se divertiram a interpretar estas personagens e tentam uns mais que outros não mostrar muito estereótipos. Junta-se a isto alguns cameos de Robbie Wiliams ( provavelmente foi a partir daqui que se desenrolou o interesse para Birdcage) RuPaul e Julie Newmar e voilá temos o melhor do filme desenvolvido, pena que o resto – o argumento – não acompanhe o elenco.

O problema é que estas personagens não tem muito relevo, são meramente little fairies que vêm resolver o problema dos outros. Seria bem mais interessante saber o que o argumentista tinha desenhado para estas personagens, mas sendo PG13 teve que superficializar a narrativa e as suas personagens, resultando assim numa banal comédia pouco inspirada, como uma Catwoman com as garras cortadas.

35% by Porcupine

http://www.dailymotion.com/embed/video/x7k5bo
To Wong Foo, Thanks for Everything! Julie Newmar… por m0vietrailerpark

The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert (1994)

de Stephan Elliot

Road Movie com todos ingredientes de self discovery que lhe são caracteristicos. Priscilla Queen of the Desert é um excelente e utópica comédia in drags, com excelentes actuações do seu elenco sustentado por um argumento que não se limita a sustentar preconceitos, mas sim pessoas com passado.

Hugo Weaving é Anthony Belrose, uma drag queen que é contratado para um show no interior da Austrália. Aí ele coloca-se em viagem com Bernadette (magnifico Terrence Stamp) uma drag-queen a recuperar da morte do namorado e Felicia (Guy Pearce), a nova estrela em ascensão, que compra Priscilla uma velha camioneta futura companheira das suas viagens.

O filme acaba por seguir o caminho normal dos road-movies, inspirado em Easy Rider e encontrando algumas personagens hilariantes (já sabemos onde os criadores de South Park foram buscar inspiração para Winona Ryder lançar as bolas de Ping-Pong), o preconceito, viajando pela Austrália mais rural.

Para mim o mais interessante do filme é a forma como o realizador desenvolve a narrativa e constrói uma realidade ainda algo utópica ainda para os dias de hoje e as questões que foram colocadas há quase 20 anos, continuam a ser tão pertinentes como eram. Mesmo que abordadas de uma forma muito light e despretensiosa em prol da comédia não deixa de ser desconcertante o caminho que ainda temos que percorrer e o quanto raros são os filmes que conseguem furar o muro do guetto e oferecer um espectáculo que consiga ser apelativo para todos os públicos.

Terrence Stamp faz um papel admirável com Bernadette, penso que deveria ter sido mais recompensado na forma como interpreta a sua personagem, dando-lhe a dureza necessária de alguém endurecido pelo tempo com uma carreira que tem tanto de exaustiva como inclusivamente define quem ela é como pessoa. Hugo Weaving e Guy Ritchie também fazem um excelente trabalho, claro que estariam ainda a alguns anos dos seus icónicos papéis que lhe viriam moldar as suas carreiras, mas Priscilla Queen of the Desert pode ser bem o seu trabalho seminal.

Um pequeno aparte: É fenomenal ver que este filme continua a inspirar, ao passar para os palcos. Durante a minha estadia em Londres encontrei várias publicidades ao musical dedicado a Priscilla, algo que me agradou bastante pois este filme trilhou o seu caminho e tornou-se numa referência por mérito próprio.  Bem merecido.

76% by Porcupine

Glen or Glenda (1953)

de Ed Wood Jr.

Ed Wood Jr é considerado o pior realizador de todos os tempos, uma classificação que deve ser reavaliada, dada a mediocridade de cineastas que existem hoje em dia. Este filme, sendo a sua primeira longa-metragem acaba por ser um esforço desconexo  sobre a intersexualidade e o travestismo (a intersexualidade aqui é designada como pseudo-hermafroditas).

Depois do suicidio de um travesti, um inspector sensibiliza-se e vai ter com o psiquiatra que costuma tratar desses casos. Aí ele fala-lhe dos casos de Glen/Glenda (interpretado por Ed Wood Jr) e Alan/ Ann. Através destes dois casos, o psiquiatra acaba por fazer um estudo documental sobre a intersexualidade e interpõe questões bastantes pertinentes sobre a construção da sexualidade.

O biopic de Ed Wood realizado por Tim Burton, acaba por satirizar este filme e a meu ver coloca-lo injustamente como um filme ilógico.  Veja-se o monólogo de Bela Lugosi no biopic de 1994 em que Pull the Strings  acaba por transparecer como um delírio cómico, mas que vendo a obra completa, apesar de cómica acaba por ter uma mensagem bastante pertinente. Para Ed Wood nós somos seres sempre confrontados com ideias preconcebidas e incutidas logo mal nascemos. Temos os nossos trabalhos, sempre programados a ir a algum lado, automaticamente de forma rotineira. O Pull the Strings funciona como um sincero conselho a todos que estão fora da norma a sair da sua zona de conforto e a viver as suas vidas de acordo com aquilo que desejam e estão felizes.

Para mim perdoa-se os erros técnicos quando existe uma ingénua sinceridade na mensagem que o realizador quer transmitir. Os filmes de Ed Wood pertencem a essa categoria.  Tomara a muitos filmes terem a mensagem que Glen or Glenda transmite. Vejam este delirio que cruza vários géneros, desde a ficção cientifica, ao cinema documental, passando pelo delirio avant-garde  e terão concerteza uma hora bem passada para discutir mesmo depois do filme ter acabado.

50% by Porcupine

XXY (2007)

de Lucia Puenzo

Sinopse :Alex (Inés Efron) nasceu com as características sexuais de ambos os sexos e para fugir dos médicos que insistiam em corrigir a ambigüidade genital da garota, a família leva-a para um vilarejo no Uruguai.
Um dia, recebem a visita de um casal de amigos, que traz com eles o filho adolescente. O pai visitante é especialista em cirurgia estética e se interessa pelo caso clínico da jovem.
Enquanto isso, Alex, de 15 anos, e Alvaro, de 16, sentem-se atraídos um pelo outro.

in Museu de Imagem e de Som de Campinas

XXY confirma uma vez mais a grande qualidade do cinema argentino. Além de abordar uma temática invulgar no cinema LGBT, executa-o de uma forma sensível, ponderada e sobretudo imparcial. O que interessa à realizadora são as personagens e são essas mesmas que dão um autêntico tour de force a XXY.

Ricardo Darin, que já tinha tido um papel extraordinário em El Secreto de Sus Ojos interpreta o pai de Alex com um underacting assinalável, reforçando a minha opinião de que este actor é dos melhores actores da actualidade.  Tanto ele como Inês Efron dão às suas personagens a complexidade necessária para nos prender a XXY, sendo em Kraken a complexidade de um pai que ama a sua filha(0), respeita a sua decisão, mas sabe do perigo iminente que essa decisão pode trazer e em Alex conseguirmos identificar o desespero da personagem e a extrema capacidade que actriz tem em fazer crer que nem é um rapaz nem rapariga mas sim os dois.

Falar unicamente de intersexualidade neste filme é reduzi-lo a um mera temática que por si só é demasiado redutor. XXY oferece um paralelismo interessante entre a personagem de Alex e a personagem de Alvaro, onde a realizadora critica o superficialismo das relações, por isso é que talvez por ironia é que coloca o pai de Alvaro como um cirurgião plástico, alguém que só vive para a aparência, quando o que está na superficie é apenas um subterfugio para uma realidade bem mais complexa que neste caso ignora na relação entre pai/filho.

O único ponto fraco vem na parte final do filme, onde é colocado o veiculo cliché da violação para dar algum impulso dramático à narrativa. O uso à violência é algo comum neste género de filmes e que analisando o filme não acrescentam nada à narrativa, pois o essencial está nas personagens completas que o filme apresenta até então.

Independentemente desta pequena falha XXY é um grande filme, e é impressionante como em 80 minutos aborda uma temática tão complexa de uma forma tão honesta. Bastante Recomendável

76% by Porcupine

Pink Flamingos (1972)

de John Waters
Receita nos E.U.A $413,802

Que filme execrável. Só consegui ver 20 minutos deste filme que é concerteza um dos objectos mais nojentos do cinema americano. Eu que conheço alguma da obra deste realizador ( quem não se lembra de Johnny Depp em Cry Baby ou de Kathleen Turner em Mãe Galinha) não posso deixar de criticar este pseudo-filme que é basicamente uma piada amadora de mau gosto.

Sexo com galinhas? Pelo amor de Deus… Este filme é inclassificável porque para além de parecer um conjunto de sketches mal actuados por pessoas de gosto duvidável é um filme que não tem qualquer mérito técnico ou narrativo. Apenas é feito para chocar, enjoar e nesse sentido o filme é bastante eficaz porque ainda estou enjoado de o ter visto.

0% by Porcupine

Normal(2003)

de Jane Anderson

Com Tom Wilkinson, Jessica Lange

Todos conhecemos Tom Wilkinson como sendo uma figura viril, máscula, interpretando personagens fortes que facilmente entram nos arquétipos usuais do tipico papel masculino. É difícil imaginar Wilkinson como um homem transsexual de 50 anos, que depois de 25 anos de casado resolve-se dizer que sempre se viu como mulher e inicia a sua transformação. Essa desconfiança assume-se porque porque sub-conscientemente, perante tal premissa e um homem como Wilkinson vamos com o pressuposto que a abordagem será algo caricatural, satírica talvez…

Roy e Irma Applewood são um casal aparentemente feliz, até ao momento em que Roy revela que é transsexual. A partir deste momento, começamos a ver as transformações que se ocorrem no trabalho, no casamento, na congregação que os acolhe e sobretudo em Roy que no decorrer do filme se transforma em Ruth.

Trata-se de um filme simpático, com grandes interpretações por parte de Tom Wilkinson e Jessica Lange que oferecem interpretações honestas às suas personagens  e uma realização segura da realizadora Jane Anderson, que realizou um dos segmentos do muito celebrizado pela comunidade lésbica If These Walls could Talk 2. Normal, assume-se como um bom drama familiar, alicerçado em personagens credíveis

Um dos pontos interessantes é a forma como a realizadora aborda a unidade familiar e as interacções do próprio casal. Roy apesar de sentir uma mulher sempre amou a sua mulher independentemente de se sentir uma mulher. Isso faz de Roy/Ruth e Irma Lesbicas? Jane Anderson, com isto tenta explicar que os rótulos acabam por ser o ponto de partida para a estipulação do preconceito e caso haja verdadeiro amor nos laços que os une, é uma questão de tempo para que essas paredes sejam derrubadas e se consiga ver a essência de uma pessoa. Independentemente do género, ama a sua esposa, continua a gostar de ir à missa e continua a gostar de Futebol, apenas é o que deve ser: uma mulher.

Irma por outro lado tem o papel da mulher que se sente traída durante um casamento de 25 anos e que passa por um período de adaptação até constatar que Roy é a sua vida e que o bem dela está eternamente ligado ao seu. Curiosamente aqui é que considero um ponto fraco do filme. Durante metade do filme Roy e Irma decidem-se separar, durante esse periodo a carência faz com que ela tenha um flirt com o patrão de Roy, para depois perceber que o seu lugar é ao lado do homem que sempre amou. A partir daqui a sua personagem aparenta ganhar um ar de resignação, em vez do suponho que intencionado, amor incondicional. Penso que seria mais honesto se Jessica Lange continuasse revoltada, mas continuando com Ruth, dado o seu amor incondicional a Roy, em vez da resignação abrupta que houve na parte final do filme.

Independentemente Normal deve ser consumido sem grandes pretensões. É um filme assumidamente pequeno, simpático. Nada fora do Normal.

60% by Porcupine

Ma vie en rose (1997)

Ma Vie en Rose de Alain Berliner
Receitas E.U.A
$2,470,827

Fábula Infantil, Sátira Social, Drama, Comédia, Fantasia… 5 géneros que todos misturados resultam em Ma vie en Rose. O filme conta a história de Ludovic Fabre, um rapaz que gosta de vestir de rapariga, não por uma questão de passatempo, mas porque está convencido que no futuro será uma mulher. Durante o filme ele vai tentar arranjar explicações mais ou menos cientificas tais como o cromossoma X no dia em que nasceu foi para no lixo daí ter nascido como rapaz e não como rapariga, ou então as dores abdominais para responder aos pais que definitivamente Ludovic é uma menina e não um menino.

O filme vai tentando amenizar o tom dramático e sério da história introduzindo o mundo visto pelos olhos de Ludovic. Um mundo colorido cheio de fadas, onde a sua fada preferida, a boneca Pam o vem salvar sempre que está em apuros, um mundo onde não se fazem juizos de valor e Ludovic é aceite. De facto o filme tenta satirizar de forma bastante subtil o ponto de vista de que é aceitável que uma rapariga se vista de rapaz, mas no sentido inverso, o caso muda de figura.

O filme não está minimamente interessado em saber se Ludovic vai crescer e tornar-se homossexual apenas indica com a inocência e ingenuidade uma criança de que pensa crescer e ser uma mulher e que gosta de se ver como tal, a sociedade moralizada e condicionada que está é que faz tais juizos de valor. O argumento em si é simples, mas o trio de protagonistas é tão convincente e destaca-se por dar credibilidade a uma temática algo dificil de ser transposta a cinema,Michelle Laroque e Jean-Philippe Ecoffey brilham como os pais, inicialmente compreensivos de Ludovic e transmitem eficientemente a frustração das suas personagens perante uma interpretação muito marcante de Georges Du Fresne , na altura com 11 anos.

A cena mais marcante do filme acontece quando é cortado o cabelo de Ludovic, George Du Fresne consegue captar o desespero silencioso da sua personagem que não entende o porquê de estar a ser desprovido de algo tão característico como o seu cabelo, simbologia da sua personalidade e sobretudo uma analogia a Sansão e Dalila.

O filme tem ganho um estatuto de filme de culto ao longo dos tempos e tratou-se de uma feliz primeira obra de Alain Berliner, realizador que depois deste filme só teve algum destaque com Passion of Mind de 2000, com Demi Moore,um filme que foi maltratado pela critica e pelo publico.

71% by Porcupine