Porcupine voltou da hibernação :)

Como sabem agora que ando aqui por Lisboa, tenho andado num reboliço. Emprego novo, novas pessoas, novos costumes e toda a logistica que isso acarreta. O facto é que com todas as mudanças o blog tem sido o dano colateral que vem por arrasto, ficando em segundo, plano, negligenciado. Mas não se pode fazer de muito num blog maioritariamente de cinema se até o cinema que tenho visto tem sido diminuto.

Mea Culpa! Irei tentar diversificar os conteúdos do blog, para que assim em tempos de crise criativa, os conteúdos continuem a ser válidos e com os minimos de qualidade exigida 🙂

Porcupine 🙂

The Children’s Hour (1961)

 

25 anos depois de ter adaptado a peça de Lilian Hellman, William Wyler (Ben Hur, Funny Girl) em These Three, resolve fazer um remake do mesmo, com Audrey Hepburn e Shirley McClaine. A versão anterior tinha colocado a personagem de Joe no centro deste triângulo amoroso, por forma a contornar o Hays Code, que bania qualquer alusão a conteúdo homossexual, por isso o realizador em 1961, resolve adaptar a peça como originalmente foi concebida, onde duas professoras Martha (Shirley McClaine) e Karen (Audrey Hepburn) vêm a sua vida profissional e pessoal arruinada através de um rumor de que estas teriam um romance lésbico.

Esse rumor é colocado por Mary que rapidamente chantageia Rosalie (uma jovem Veronica Cartwright) a corrobar na sua versão. O filme explora mesmo o poder corrosivo de uma mentira, através da discriminação e da conotação negativa que a homossexualidade tinha na altura. Apesar de Martha confessar o seu amor a Karen no final, acho incrível como ambas as actrizes apesar de suspeitarem, nunca discutiram sobre a sexualidade das suas personagens, nem mesmo as suas opções finais. Tudo estava tão cripticamente concebido para que tanto dos actores. como da produção, não existisse a mínima possibilidade de censura.

Vejo o filme como um dos primeiros exemplos da questão do orgulho gay. Pessoalmente considero a personagem Karen, seminal nesse aspecto. No final, a forma como ela caminha orgulhosa, perante todos, inclusivamente o seu ex-noivo Joe é sobretudo, um testemunho de inocência confirmada, mas a meu ver, um coming out implícito. A peça está eximia na forma como é necessária a mentira para que uma parte veja a verdade sobre si mesma. Por isso considero que a tragédia surja igualmente como um awakening à personagem de Audrey Hepburn.

Da tragédia surge a esperança, e de uma mensagem aparentemente negativa ( a forma como o lesbianismo é ocultado e o fatalismo da sua personagem) acaba-se por ressurgir, uma mensagem de orgulho e de auto-afirmação, inabalável e consciente. Com uma excelente fotografia e boas interpretações do trio protagonista, sente-se que The Children’s Hour envelheceu bem, no sentido em que é um dos testemunhos cinematográficos da discriminação à comunidade LGBT nesta industria e a forma como os seus criadores tentar dar a volta à situação com uma mensagem implicitamente mais positiva.

Os termos faltam, peças narrativas faltam (todo o processo de tribunal foi ocultado), mas isso acaba por ser a impressão digital deste filme na história do cinema. Quem sabe não poderá haver um terceiro remake, reformulando o argumento e dando um novo enfase não ao relacionamento lésbico, mas sim a um relacionamento entre o trio de protagonistas? A bissexualidade não está na moda? Just a thought 🙂

77% by Porcupine

C.R.A.Z.Y (2005)

C.R.A.Z.Y representa o nome dos cinco filhos da família Beaulieu : Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvari.  O interessante do filme é que Jean-Marc Vallée incorporou de forma algo leve temas sérios como a homossexualidade, a repressão e onde se origina a homofobia ou a própria noção de felicidade, sem prejudicar a leveza do filme. Isso é notório, quando a meio do filme numa cena entre os pais, onde discutem a homossexualidade do filho, e a mãe relativiza com experiências que ambos experimentaram, reparamos que o realizador mantendo a simplicidade da narrativa consegue almejar mais alto naquilo que quer expressar.

Zachary nutre uma ligação especial com o pai, ligação essa que se perde, quando o pai o vê em roupas femininas a cuidar do irmão mais novo. A partir dai, ele irá reprimir a sua sexualidade em prol de uma ligação mais profunda com o seu pai. O filme é uma odisseia à reconquista dessa ligação e de descoberta. O realizador opta por incorporar elementos religiosos na personagem, onde nascendo no dia de natal, numa família disfuncional, ele tivesse que fazer a sua travessia no deserto, os seus 40 dias para exorcizar os demónios do passado. São pequenos artíficios que entretêm e não prejudicam a essência da narrativa que são as suas personagens.

O dom de Zachary acaba por surgir no final, onde perante a tragédia, o pai percebe verdadeiramente o que é importante ou acessório, num momento incrivelmente comovente. Muitos poderão contestar que a homossexualidade de Zachary está demasiado underplayed durante o filme, nos momentos finais  percebemos que esse nunca terá sido o objectivo do realizador e o que este poderia ser o lar de muita gente.

 80% by Porcupine

Tori Amos 20 Year Guide – Part 2

Em 2000 representa o nascimento da filha de Tori Amos Natashya Hayley, depois de alguns abortos, que a marcaram significativamente no periodo de From the Choirgirl Hotel. Este acontecimento inspirou-a a fazer um album de versões “Strange Little Girls”, um albums de músicas de homens sobre mulheres, mas visto da perspectiva da mulher. Composto por 12 mulheres, cada uma com a sua personalidade adequada a cada musica.

Pessoalmente o album contem uma versões absolutamente geniais de Neil Young Heart of Gold, Beatles : Happiness is a Warm Gun, uma assustadora versão de Eminem Bonnie & Clyde ou Raining Blood de Slayer que teve direito a um remake absolutamente hipnotizador. Mas os fãs procuravam algo mais pessoal e Tori Amos acederia a tal pedido.

2002 : O mundo vivia no rescaldo dos ataques de 11 de Setembro e Tori Amos resolveu criar uma personagem Scarlett que ao longo de 18 canções lança-se num misto de canções, bem ao núcleo da América e da sua história, sem perder o cunho pessoal de analisar as relações, as suas discrepâncias e os comportamentos mais extremos. Seria um album conceptual, pessoal, que muitos fãs tem-no como referência maior, da fase posterior da cantora.

A Sorta Fairytale foi o primeiro single, uma balada absolutamente irresistível, mas é em Gold Dust que Tori Amos Arrebata-nos por completo, mostrando uma vulnerabilidade que apesar de toda a herança temporal e genética dos nossos antepassados, somos apenas algo perecível e só através das emoções e das memórias nos tornámos relevantes.

Em 2005 veio Beekeeper, um album algo dispar na sua discografia, sem o dramatismo, revestido de cores sensuais e primaveris. Este período representa uma fase de alienação dos fãs que já não se revêm numa Tori Amos conceptual, sem a frontalidade e a honestidade de outros tempos. A maternidade deu-lhe a serenidade necessária para exorcizar os seus demónios. Apesar de ser uma referência menor da sua discografia, é um album que vai crescendo a cada audição, mesmo que merecesse um director’s cut.

Sweet the Sting, Sleep with Butterflies, The Power of Orage Nickers são os melhores exemplos desta faceta mais descontraída de Tori Amos, um album conceptual onde se inspirou largamente em Religião e Politica. Tomara a muitos ter uma fase menos inspirada como esta.

Em 2007 seria a vez de American Doll Posse, mais um album conceptual, cujas canções são representações de 5 alter-egos Isabel, Clyde,Pip, Santa e Tori, representações de deusas gregas, cada uma com a sua personalidade, manifestando-se em várias fases do album. Acaba por ser o album mais desiquilibrado da sua carreira. 23 canções, ao longo de 80 minutos, torna-o quase inacessível. É uma manifestação criativa contra as políticas de George W Bush. Mais uma vez, um director’s cut não ficaria nada mal neste album, que contem algumas boas canções, mas emocionalmente frustrante. Dark Side of the Sun é um dos belos exemplos do album, bem como os singles de avanço Bouncing the clouds, Big Wheel.

Este período representa um período conturbado para Tori Amos. Mostra-se descontente com a promoção do seu trabalho e em 2007 termina o seu contracto com a Epic Records que tinha-se iniciado em 2002. Posteriormente assina com a Universal Records, que lhe permite uma maior autonomia sobre os seus projectos e assim afasta-se dos grandes contractos em prol de uma maior liberbade.

Em 2009 assina dois projectos. Abnormally Attracted to Sin, um album de 17 canções, onde a veia conceptual está menos vincada e as canções estão mais livres para ser apreciadas individualmente.Nota-se um maior esforço de Tori em voltar à fase de From the Choirgirl, mas os anos e as escolhas criativas menos perceptiveis daquela década alienaram os seus fãs. Apesar de conter grandes canções tais como That Guy, Give, Abnormally Attracted to Sin ou Lady in Blue, Tori Amos foi-se transformando fisicamente e criativamente ao longo dos anos. Só mesmo a base mais hardcore de fãs se mantiveram. Independentemente disso ATTS é um dos melhores desta ultima fase.

Em 2009 lançaria o album Midnight Graces, um album de Natal, contendo apenas 12 faixas. O album foi elogiado pela crítica pela sua capacidade de concentração. Os fãs elogiam o retorno à simplicidade, sem que isso se traduza num exito de vendas. Aplaude-se o esforço e este é um dos melhores albuns de Natal (e não digo isto por ser fã da Tori)


A Seguir : A Conclusão com Night of Hunters, uma reinterpretação de música clássica, adaptado aos valores do século 21. Schubert, Bach, Mozart numa odisseia musical.

Tori Amos : 20 Year Tour Guide Part 1

Era o ano de 1992. O grundge estava na moda com Nirvana, Nine Inch Nails, Pearl Jam, Metallica no auge da sua popularidade e eis que Tori Amos chega de rompante e cativa tudo e todos, com a sua postura sexy frente ao Piano, letras pessoais e absolutamente comoventes, bem como satíricas e relevantes para altura. Little Earthquakes toma de assalto o box office e assina um dos melhores albuns daquele ano e torna-se a voz para muitas jovens que se identificam com a sua letra. Winter é um óptimo exemplo disso mesmo, num album cheio de clássicos como Crucify, Precious Things ou o assombroso Me and a Gun, onde ela fala abertamente sobre a sua violação e a forma como ela se sentiu de uma forma tão aberta e sincera que ninguém fica indiferente.

Em 1994, chegava Under the Pink, o cunho pessoal mantém-se, ainda mais minimalista. Pessoalmente a fórmula neste está mais enigmática. Muitos preferem a acessibilidade do anterior. Eu prefiro as paisagens minimalistas de Icicle, Baker Baker, o Classico Cornflake Girl ou a odisseia orquestral que é Yes Anastacia.

Em 1996 viria aquele em que Tori Amos apresentaria o seu trabalho mais díspar, uma obra prima épica de 18 musícas, enigmáticas, cheias de referências pessoais. Muitos sentiram o album como uma experiência frustrante, fechado em si mesmo, o que contrastou com a abertura e a sinceridade dos anteriores. Com uma imagem mais provocativa, Tori Amos estava a reinventar-se, a tornar-se mais autónoma e com isso mais fascinante.

1998-1999 seria o Ano em que Tori Amos se voltaria para um som mais electrónico instrumental. Viria com dois trabalhos seminais, que muitos representam como sendo a sua fase favorita. From the Choirgirl Hotel e From Venus and Back. Daí sairiam clássicos absolutamente majestosos como Spark, Cruel, iiee, Jackie Strength ou 1000 Oceans que mostravam uma Tori Amos vulnerável. novamente acessível, sempre experimental e em consonância com os seus fãs.

Amanhã virá a segunda parte, que incidirá numa segunda fase, menos prolifera em êxitos, mas igualmente fascinante. O conceito aqui é a partilha e se houver alguém se identificar da mesma forma como eu me identifiquei com Tori Amos, então já terei o dia ganho e facilmente descobrirão a artista completa que ela é.

Bearcity (2010)

Bearcity é outra comédia apelidada como sendo Sex and the City for Bears, onde a personagem principal Tyler é um rapaz que sente atracção por Bears e começa a sua incursão naquele mundo.O que chateia neste tipo de filmes é que a fórmula é sempre a mesma. Rapaz inseguro, não se enquadra no estereótipo e apaixona-se pelo Bear mais famoso da zona. O arco principal da história é desinteressante e prevísivel, deixando lugar para os secundários brilhar, nomeadamente um casal que “resolve” abrir a relação (inclui uma cena no chuveiro escatológicamente hilariante) e um arco muito pouco explorado que curiosamente o que teria mais potencial que é a personagem de Michael, desempregado que vê-se motivado a fazer a operação da banda gástrica, para emagrecer e conseguir mais oportunidades de trabalho e consequentemente mais auto-estima.

Infelizmente o filme opta por descartar as opções dramáticas que poderiam transformar o filme em algo mais consistente e menos superficial, para optar pelas soluções convencionais de uma comédia romântica. Pena que o  protagonista além de mau actor, para mim os seus dilemas são o menos interessante do filme, que a meu ver apenas serve para servir de contraste com os atributos físicos de um típico bear. Tal Chuecatown, entretém, mas não convence. Mas pessoal preparem-se que a sequela vem a caminho.

43% by Porcupine

Chuecatown (2007)

Sinopse : Chuecatown é uma comédia com contornos hitchockianos, onde um casal de Bears Madrilenos vêm a sua vida de pernas para o ar, quando um agente imobiliário serial killer tenta comprar o andar que subitamente Rey herdou.

Chuecatown é uma comédia despretensiosa que tenta jogar entre o thriller e as situações cómicas, com algumas personagens bizarras, muito ao espirito de Almodóvar. desde uma detective com todo tipo de fobias com um parceiro que é seu filho que vai-se afirmando progressivamente cada vez mais gay, um casal de bears amantes Comics, uma sogra vinda dos infernos, um serial-killer a um ex-namorado intrometido.

O filme joga com uma série de referências culturais que o torna apelativo e cómico, mas que a meio do filme opta por soluções algo previsíveis e acaba por perder um pouco as suas potencialidades. O filme tem na sua figura mais caricatural, Victor, o agente imobiliário que no final acaba por se tornar na personagem mais interessante, porque ele é um Patrick Bateman (American Psycho), influência hitchcockiana directa, que satiriza, o poder que a estética detem actualmente.

Essa visão ganha ganha bastante relevo no confronto que existe no final entre Leo e Victor, e perante esses últimos momentos o filme ganha uma intensidade que não tinha tido até ao momento e percebemos que algo mais centrado na personagem de Victor e nas suas motivações, teriamos um produto mais intenso, negro e relevante. Mesmo assim considero uma boa comédia com alguns momentos hilariantes e personagens carismáticas, mas que a meu ver teria potencialidades para muito mais.

60% by Porcupine

Tomboy (2011)

de Celine Sciamma

Tomboy para alguns sofre de um mal, que a meu ver acaba por ser a sua maior virtude. A simplicidade que Celine Sciamma opta por dar à narrativa, transparecem às interpretações uma naturalidade invejável. Acreditamos naquela família e sobretudo acreditamos em Laura/Michael, uma criança de 10 anos que recém chegada à nova localidade, finge ser Michael e começa a relacionar-se com as crianças daquele bairro como Michael.

O interessante deste filme é que não existe qualquer manipulação por parte da cineasta em entrar qualquer campo de sexualidade. A realizadora mostra as várias interacções entre irmãs, entre pais e um primeiro amor. O que importa é mostrar aquele Verão, como algo que poderá ter implicações futuras ou como algo estruturante na sua sexualidade para o futuro ou como uma pequena brincadeira de verão. Ao longo do filme vamos tendo as nossas respostas, que, sugerem um ou outro caminho, mas a realizadora habilmente gere  os espaços e nunca toma partidos, para tornar o filme, ( tal como a sua protagonista) ambiguamente cativante.

Previsão de Estreia 19 de Abril

67% by Porcupine

My LGBT Art Lair :)